A Tela Rasgada de Joclécio Azevedo (2025)
Joclécio Azevedo
Peças
Mira ForumIntrodução
A tela rasgada é a segunda peça de uma trilogia iniciada em 2024 com o solo “Apesar das Evidências” e que constitui a componente prática que deriva do projeto “Escrever sem Alfabeto” no doutoramento em arte contemporânea do Colégio da Artes, Universidade de Coimbra. O projeto desenha-se a partir do uso experimental da escrita enquanto prática, matéria e das suas transformações no processo coreográfico. A escrita enquanto gesto, dispositivo ficcional ou prática especulativa é aqui observada em dimensões individuais e colaborativas, bem como nas relações que estabelece entre quem escreve e as tecnologias ou metodologias implicadas no ato de escrever. O projeto consiste no desenvolvimento de um conjunto de dispositivos performativos que se materializam através de processos que envolvem coreografias, micro conferências, laboratórios, instalações ou publicações. 3 novas criações integram-se na componente prática articulando-se a partir do livro “Três degraus na escada da escrita”, de Hélène Cixous, cujo enquadramento conceptual informa a prática coreográfica enquanto modo de escrita. Neste livro a autora identifica três ,“escolas” onde aprende a escrever e a articular as suas leituras de outros autores: a “escola dos mortos”, onde a escrita se relaciona com a perda, com a transformação, mas também com a possibilidade de lidar com o legado dos artistas e escritores do passado; a “escola dos sonhos”, onde a escrita desorganiza-se a partir da lógica não linear do sonho, e a “escola das raízes”, onde a escrita penetra no interior do corpo, dando relevo à impureza e ao abjeto. Cada uma destas “escolas” serve de ponto de partida a um dos trabalhos da trilogia, desenvolvidos enquanto solo (Apesar das Evidências, 2024), dueto (A Tela Rasgada, 2025) e trio (Mentes Sujas, 2026).
Sinopse
A tela rasgada é a segunda parte da trilogia iniciada em 2024 com a peça “Apesar das Evidências”. Trabalho desenvolvido em diálogo com o músico e artista visual Pedro Tudela. O público é convidado a entrar num dispositivo visual e sonoro que existe autonomamente enquanto instalação, mas que se desdobra coreograficamente através da ação de dois performers. Evocando estados de consciência como o sonho, o delírio ou a alienação o espaço é povoado por intrincadas arquiteturas afetivas. Os performers entregam-se a jogos de anatomias ficcionadas, estados corporais obsessivos e processos que implicam o corpo na disjunção entre imagem e linguagem. Os corpos são esvaziados de intenções, assumem-se como mediadores, superfícies de projeção ou interfaces entre imaginação, experiência e pensamento. O escritor egípcio Haytham El Wardany, na sua obra “The book of sleep”, caracteriza o espaço entre o sono e a vigília enquanto uma fronteira interna do estado onde, nas palavras do autor, o poder é interrompido e as leis dissolvem-se. É neste subsolo que cada sonho se configura como um momento de crise e de dissolução da subjetividade, evidenciando tensões entre sonhos coletivos e a realidade material da existência. “A tela rasgada” é também um espaço de projeção, fronteira permeável onde operam outras lógicas de relação e de sentido (talvez à procura do ingrediente psíquico do movimento que Artaud julgava poder existir no cinema). Mas em vez de tela há apenas uma deriva hipnagógica, a perda da gravidade num terreno imprevisível. Objetos, espaços e sons persistem nos sonhos numa espécie de cinema mental, provocando estados de atenção incomuns e deslocações semióticas e topográficas.
Coreografia: Joclécio Azevedo | Instalação: Pedro Tudela | Interpretação: Kosma Bresson e Thalia Agapaki | Desenho e operação de luz: Pedro Carvalho | Apoio: Teatro de Ferro | Residências: Conservatório de Música, Teatro e Dança de Vila do Conde, Teatro Municipal de Vila do Conde, Central Eléctrica – CRL, Campus Paulo Cunha e Silva | Produção executiva: Circular Associação Cultural | Co-produção: Festival Internacional de Marionetas do Porto | Agradecimentos: Cláudia Galhós, Kiran Gorki
M/12 | Duração aprox.: 70 min. | Apresentado em português e inglês
Estreia na Mira Galerias/Porto no âmbito do FIMP’25, 31 de Outubro e 1 de Novembro de 2025
Este trabalho é financiado por fundos nacionais através da FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia, I.P., no âmbito do projecto Escrever sem Alfabeto: Metodologias e Processos de Transfiguração da Escrita na Prática Artística https://doi.org/10.54499/2023.02163.BD.
Joclécio Azevedo
Brasil, 1969. Vive no Porto desde 1990. Diretor artístico do Núcleo de Experimentação Coreográfica entre 2006 e 2011. Membro da direção plenária da GDA de 2008 a 2023 e membro do Conselho de Curadores da Fundação GDA entre 2010 e 2017. Artista residente da Circular Associação Cultural desde 2012, tendo também coordenado o programa educativo da associação entre 2018 e 2023. Frequenta o doutoramento em Arte Contemporânea do Colégio das Artes, UC.
Pedro Tudela
Nasceu em Viseu em 1962, vive e trabalha no Porto. Licenciou-se em Pintura pela Escola Superior de Belas Artes do Porto (ESBAP) em 1987 e expõe internacionalmente desde 1982. Em 1992, para a exposição “Mute… life”, fundou o colectivo multimédia Mute Life Dept. Em 2003 foi cofundador do selo de mídia Crónica. Colabora com Miguel Carvalhais no projeto de música eletrónica @c. É professor auxiliar na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto.
Kosma Bresson
Kosma Bresson é um bailarino, performer e coreógrafo franco-russo de 28 anos que vive em Bruxelas. Ele dança em peças de Monica Calle, Mafalda Deville, Joclecio Azevedo, Louis Simon, Aimé Gaster. Desenvolve a sua pesquisa no mestrado em coreografia na Charleroi Danse.
Pedro Vieira de Carvalho
Em 2003 e 2005, foi coordenador da equipa de luz do Teatro Carlos Alberto, no Porto, e entre 2005 e 2009, Director técnico do Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães. Desde 2010, assume a Direcção técnica do FIMP – Festival Internacional de Marionetas do Porto. Entre 2010 e 2017, foi Director técnico do Teatro do Bolhão e da Academia Contemporânea do Espectáculo. Em 2017 - 2018, assumiu a Direcção técnica do Teatro Municipal do Porto – Rivoli e Teatro do Campo Alegre, e do Festival DDD-Dias da Dança.
Thalia Agapaki
Thalia Agapaki (GR) é bailarina, coreógrafa e professora de dança contemporânea e improvisação. Colabora com artistas como Beatriz Valentim, Hélder Seabra, Mafalda Deville, Joclécio Azevedo, Teresa Simas e a Orquestra de Câmara Portuguesa. Criou peças, incluindo estreias no Palcos Instáveis (TMP) e no festival Dança Invisível.
Co-fundadora do coletivo Leftovers e da dupla artística EachOther.
O estilo artístico de Thalia funde intensidade física, sensibilidade artística e simplicidade poética. Ela vê a dança como uma ferramenta para aumentar a consciência e promover a comunicação não violenta.
Estudou Engenharia Agrícola na AUA, paralelamente à Dança em Atenas. Mais tarde, concluiu o programa de dança Oficina Zero e o FAÍCC (Formação Avançada em Interpretação e Criação Coreográfica).