Lançamento do disco Pautas (2024) de Silvestre Pestana e Supernova Ensemble | 7 Ago. Bienal Internacional de Arte de Cerveira | Palco das Artes
Lançamento do disco integrado na Bienal Internacional de Arte de Cerveira + Concerto "Pautas (2024) às 21:30 no Palco das Artes (entrada livre)
[DISCO] PAUTAS (2024) SILVESTRE PESTANA & SUPERNOVA ENSEMBLE
[DISCO] PAUTAS (2024) SILVESTRE PESTANA & SUPERNOVA ENSEMBLE
Direcção Artística: José Alberto Gomes, João Dias, Silvestre Pestana
Vídeo e Inteligência Artificial: Luis Arandas
Electrónica e Gravações: José Alberto Gomes
Multipercussão: João Dias
Guitarra Eléctrica: Miguel Moreira
Flauta: Clara Saleiro
Violoncelo: Carina Albuquerque
Produção: José Alberto Gomes
Gravação e Remistura: Daniel Santos
Encomenda e Co-Produção: Fundação de Serralves
Curadoria: Pedro Rocha
Gravado ao vivo a 14 Setembro 2024 no Auditório de Serralves e a 23 Março 2025 no Teatro do Bairro Alto/Rescaldo2025.
Supernova Ensemble integra o projecto Artista Residente da Circular Associação Cultural.
A Circular Associação Cultural tem financiamento de República Portuguesa/Cultura, Juventude e Desporto, Direcção-Geral das Artes.
A Circular Associação Cultural tem financiamento de República Portuguesa/Cultura, Juventude e Desporto, Direcção-Geral das Artes.
Em 1975, Silvestre Pestana encontrava-se a residir em Londres, isto após quatro anos de exílio em Estocolmo. Em Portugal, este era o ano do «Verão Quente», da extrema instabilidade e tensões governativas que se seguiram à queda de um regime ditatorial com 48 anos pela força da revolução do 25 de Abril de 1974. As batalhas travavam-se agora sobre o que fazer com (e em nome da) liberdade conquistada.
Foi também em 1975 que Pestana criou um conjunto de 20 obras gráficas a que deu o título de Pautas. Em cada uma destas Pautas, encontramos um conjunto de elementos - na sua maioria, formas geométricas intensamente cromáticas, mas também algumas imagens fotográficas e fonemas - sobre uma base de papel milimétrico e, em todas elas, numa margem, um sistema referencial cromático.
Na construção destas pautas cruzaram-se várias referências, como sejam: o elementarismo expressionista ou mesmo espiritual na abordagem às formas e à cor na escola da Bauhaus de Johannes Itten ou em Vasily Kandinsky; a sistematização e investigação cromática realizada por cientistas como Michel Eugène Chevreul, muito em resposta às necessidades da indústria têxtil francesa; os estrados luminosos das discotecas em Londres, onde luzes coloridas vindas do chão iluminavam os corpos na pista de dança; ou o conceito «more is less» (o máximo de informação com o mínimo de meios), materializado no chip e mantido por um certo movimento minimalista reducionista na arte.
O suporte para as Pautas foi encontrado nas papelarias de Londres: o papel milimétrico. Este definia, desde logo, duas dimensões (x, y) e permitia uma ilusão de tridimensionalidade e movimento para formas gráficas intensamente cromáticas que lhe eram sobrepostas. O papel milimétrico concêntrico apontava para a profundidade, o triangular para um movimento direccional. Algumas destas formas gráficas abundavam na paisagem quotidiana, nomeadamente na identidade e propaganda dos novos partidos políticos então formados. E, enquanto estas formas interrogavam a possibilidade de o significante se libertar do significado, os fonemas que as pontuavam apontavam para os desafios inscritos nos ideais de um «povo» que quebrava a casca do «ovo» para renascer, movido pela vontade de abraçar uma visão livre.
Em 1975, as Pautas problematizavam a realidade de uma «liberdade» recém-conquistada. A ironia que atravessava este conjunto de pautas sem instruções de leitura estava, simultaneamente, na interrogação da possibilidade de liberdade e no questionamento do desejo que a reclamava. A sua aparente simplicidade compreendia grandes complexidades, que hoje ecoam com especial força em tempos da expansão da Inteligência Artificial, uma inteligência essencialmente abstracta e «livre».
Uma primeira revisitação das Pautas num sentido criativo foi proposta em 2022 a Silvestre Pestana e experimentada por Pedro Rocha ao longo de uma semana de residência e um concerto com uma orquestra informal de música improvisada de alunos da École Nationale Supérieure d’Arts na Villa Arson, em Nice, a L’Orchestre Inharmonique de Nice. Aqui explorou-se a possibilidade de estas «pautas» se poderem transformar em pautas musicais gráficas, simultaneamente introduzindo na equação uma outra presumida liberdade: aquela teorizada por John Cage e que advogava que as partituras gráficas poderiam libertar o intérprete.
Em 2024, e tendo como pano de fundo as celebrações do 50.º aniversário do 25 de Abril, uma segunda revisitação das Pautas é proposta por Pedro Rocha a Silvestre Pestana, desta feita entregando-as nas mãos do SuperNova Ensemble, um colectivo português de geometria variável e multidisciplinar liderado pelos músicos João Dias e José Alberto Gomes, com a intenção de se criar um espectáculo a ser estreado em Serralves. Nesta revisitação temos, por um lado, a propriedade da reactivação de uma obra pertencente à colecção do Museu de Serralves e, por outro, o interesse de Silvestre Pestana em se encontrar com receptores criativos da sua obra, com o ruído implicado nesse processo, e em tornar-se agora, ele próprio, um receptor.
Em Pautas, 2024, a proposta é a de uma abordagem transdisciplinar à série de trabalhos de 1975 que envolve não apenas a criação musical, mas também uma leitura visual densa, de interpretação logarítmica, com base em médias estatísticas, tal como nos é dada pelo processamento pela Inteligência Artificial. O layout padronizado das Pautas de 1975, mais próximo do tipográfico (e das partituras musicais), encontra a leitura das novas tecnologias. O «ver para ler» encontra o «ler para ver». E o público é convidado a subir a um palco e habitar um lugar onde se materializa esta encruzilhada.
As Pautas são, em 1975 e hoje, um trabalho sobre sistemas humanos e tecnológicos de manipulação.
— Silvestre Pestana e Pedro Rocha