Diaporama
Cesário Alves
Instalação
Teatro Municipal de Vila do Conde [Salão Nobre]25 Set. (Sex.), 19:00 - 22:00
26 Set. (Sáb.), 19:00 - 22:00
M/6 | Duração: 3 horas (performance duracional)
26 Set. (Sáb.), 19:00 - 22:00
M/6 | Duração: 3 horas (performance duracional)
Viagens no tempo e na memória, através de diapositivos de 35 mm encontrados em diversas partes do mundo. Fotografias órfãs, de pessoas desconhecidas, que se misturam com pedaços de filmes recuperados dos caixotes de lixo das cabines de projecção de antigas salas de cinema. A criação sonora inclui gravações em fita magnética, muitas delas encontradas, mas também ondas de rádio, ruídos concretos e sintéticos produzidos no momento, como o foley para um filme ou uma séance espiritual.
‘Diaporama’, palavra de uso menos frequente hoje, mas intercambiável com ‘slideshow’, define-se como uma projecção sequencial de transparências fotográficas com som sincronizado. O conceito de diaporama desenvolveu-se com o crescimento global da fotografia a cores com filme de 35 mm e a consequente disseminação dos projectores de diapositivos (ou slides), que se tornaram comuns nas salas de aula e nas casas dos mais abastados, na segunda metade do séc. XX. O projector de diapositivos é o descendente directo da lanterna mágica, aparato de projecção de imagens desenhadas manualmente em vidro, conhecido desde o séc. XVII e que antecipa o aparecimento da fotografia e do cinema.
O diaporama desenvolveu-se a ponto de se tornar uma forma de expressão muito sofisticada do ponto de vista técnico e artístico. Empresas como a Kodak e outras investiram na investigação para criar projectores robustos e profissionais, bem como controladores electrónicos que permitiram imaginar espectáculos complexos com múltiplos projectores e bandas sonoras criadas para o efeito. Empresas, técnicos e artistas especializaram-se nos diaporamas e, a certa altura, nos anos 90 do séc. XX, no auge do desenvolvimento de processos, incluindo software cada vez mais evoluído para controlo a partir do computador, toda a atenção se virou para os projectores e tecnologias digitais. As máquinas e os slides foram ficando nas prateleiras a ganhar mofo.
As fotografias que se reúnem neste Diaporama são imagens vernaculares de autoria e data desconhecida, produzidas ao longo dessa época de euforia que resulta da popularização massiva da fotografia, entre a Segunda Guerra Mundial e o fim do século, altura em que o processo fotográfico se converteu de analógico em digital. São as fotografias de um universo vernacular amador relativamente democratizado e globalizado, que gradualmente se tornou acessível a cada vez mais pessoas pelo mundo fora, impulsionado pelas economias mais industrializadas e dominantes. A história da fotografia não deixa de reflectir a história da economia e da política mundial, e as histórias das famílias contadas pelas suas fotografias não deixam de ser o espelho da sua liberdade, do seu acesso a meios de sobrevivência, cultura e qualidade de vida, como nos explicou Pierre Bourdieu, no seu Un Art Moyen, de 1966, ensaio sobre os usos sociais da fotografia.
A performance visual e sonora Diaporama contempla diapositivos encontrados em diversas partes do mundo, revelando fotografias de pessoas que não conhecemos mas reconhecemos, porque se parecem connosco, ou lugares onde talvez não tenhamos estado mas que julgamos familiares. No processo de projecção, essas fotografias misturam-se com desperdícios de filmes recuperados dos caixotes de lixo das cabines de projecção das velhas salas de cinema. A mesma matéria celulóide, o mesmo formato da película perfurada de 35 mm de largura, mas com origens e percursos distintos. As fotografias vernaculares amadoras, que de forma massiva ajudaram a criar uma indústria, fundem-se aqui com vestígios da dimensão global do cinema, através de pedaços de película rejeitados por projecionistas nas suas preparações de bobines para a exibição nas salas.
As fotografias e o cinema nasceram do mesmo desejo e da mesma matéria físico-química e são efectivamente a mesma coisa, podemos inferir do pensamento do fotógrafo e cineasta experimental Hollis Frampton, que afirmou que a fotografia, enquanto quadro isolado de uma sucessão rápida que cria a ilusão do movimento, só surgiu primeiro historicamente, para poder proporcionar o cinema. Cada nova fotografia, por estática que pareça, é o fragmento de um filme potencialmente infinito do qual não vemos o antes ou o depois.
Esse cinema-fotografia-matéria, de química palpável, sensível às mutações da luz, da temperatura e da humidade, pode muito bem sobreviver à mão que o criou e à mente que o imaginou, mas está condenado a morrer, possivelmente depois de ser visto por outros olhos, tocado por outras mãos, digitalizado por outras máquinas, distantes e indiferentes aos seus criadores. Da gravação de sons em fitas magnéticas, em suportes ópticos ou em rasgos no vinil que acompanharam o cinema e a nossa necessidade de comunicar, pode-se esperar o mesmo: que pereçam, depois de servirem a temporalidade da memória humana. No entanto, algo da presença histórica de uma voz e dos ruídos que a rodeiam permanece na vida de uma gravação de áudio, enquanto ela dura.
A criação sonora que acompanha as imagens no Diaporama inclui gravações em fita magnética da era analógica, muitas delas encontradas, pessoais e órfãs, mas também ondas de rádio e outros ruídos concretos e sintéticos, produzidos no momento, como o foley para um filme ou uma séance espiritual. A performance procura reagir e integrar a arquitectura da sala onde intervém, é por isso ‘site specific’ e ‘time specific’, reflectindo o local e o tempo em que acontece.
Este trabalho deixa uma questão latente que não conseguimos deixar de adiar: Quando morrermos, para que servem os arquivos pessoais que acumulamos?
diaporama.cesarioalves.net
cesarioalves.net/projects/diaporama
Concepção e operação de imagem: Cesário Alves | Atmosfera sonora: Miguel Pipa, Mariana Sardon, Hélder Luís e Cesário Alves | Supervisão técnica: Hélder Luís | Duração: 3 horas (performance duracional).
Cesário Alves
Artista multidisciplinar e professor. Concluiu doutoramento em 2018 no College of Arts, Humanities and Education, da University of Derby, no Reino Unido, onde desenvolveu investigação no campo da fotografia vernacular e das suas apropriações na arte contemporânea. Leciona unidades curriculares da área de conhecimento de Fotografia nos cursos da Escola Superior de Media, Artes e Design (Politécnico do Porto), em Vila do Conde.
www.cesarioalves.net
Hélder Luís
Designer, artista multimédia, fotógrafo e músico. Estudou Design Gráfico e Tipografia e, desde 1996, desenvolve projectos para diversas empresas e instituições, em Portugal e no estrangeiro. Apresentou criações individuais e colectivas em diferentes contextos, mantendo uma prática contínua de composição e edição musical. Desde 2018, dedica-se à exploração da cultura marítima enquanto fotógrafo documental e artista multimédia. Através da fotografia, da instalação e da edição de livros, investiga a relação entre as comunidades costeiras e o mar, documentando práticas tradicionais, transformações culturais e memórias colectivas. O seu trabalho tem sido apresentado regularmente em exposições por todo o país, afirmando-se como uma reflexão contemporânea sobre o património marítimo em Portugal. Em 2021 concluiu um mestrado em Fotografia e Cinema Documental e, em 2026, uma pós-graduação em Museologia.
www.helderluis.net | www.helderluis.pt
Mariana Sardon
Artista multidisciplinar. Licenciada em Tecnologias da Comunicação Multimédia (ESMAE – Porto, 2013) e mestre em Multimédia, com especialização em Música Interactiva e Sound Design (FEUP – Porto, 2017). O seu trabalho expande-se nos formatos de performance e/ou de instalação a partir dos objectos sonoros — electrónicos ou electroacústicos — em que tem vindo a trabalhar. Interessa-se por arquivos sonoros e de imagem, tendo em foco os seus processos técnicos de registo. Nos últimos anos tem vindo a colaborar com outros artistas, desenvolvendo projectos em contexto de residência artística. É também responsável por dirigir oficinas direccionadas para a construção de instrumentos electrónicos e construção de loops de som a partir de fita magnética.
www.marianasardon.net
Miguel Pipa
Poeta, músico e artista visual, constrói um universo onde a palavra, o som e o desenho coexistem entre tensão e harmonia. Move-se fora das estruturas académicas, explorando o erro, o improviso e a filosofia como força vital. Na sua obra, o gesto do desenho aproxima-se da escrita, e a experimentação sonora revela-se como uma forma de existência. Cria territórios imaginários, onde o natural e o artificial se contaminam e regeneram continuamente. A sua prática, simultaneamente poética e performativa, afirma-se como um exercício de liberdade e de escuta.
www.miguelpipa.pt
As fotografias que são objecto deste trabalho foram adquiridas ou encontradas em diversos países, sem qualquer informação associada sobre a sua origem, autoria ou identificação das pessoas representadas. Supomos que essas pessoas já desapareceram, mas, se não for esse o caso e alguém conseguir identificar ou provar uma relação com elas, fazemos questão de as identificar, respeitando a autoria ou de lhes devolver os originais.
‘Diaporama’, palavra de uso menos frequente hoje, mas intercambiável com ‘slideshow’, define-se como uma projecção sequencial de transparências fotográficas com som sincronizado. O conceito de diaporama desenvolveu-se com o crescimento global da fotografia a cores com filme de 35 mm e a consequente disseminação dos projectores de diapositivos (ou slides), que se tornaram comuns nas salas de aula e nas casas dos mais abastados, na segunda metade do séc. XX. O projector de diapositivos é o descendente directo da lanterna mágica, aparato de projecção de imagens desenhadas manualmente em vidro, conhecido desde o séc. XVII e que antecipa o aparecimento da fotografia e do cinema.
O diaporama desenvolveu-se a ponto de se tornar uma forma de expressão muito sofisticada do ponto de vista técnico e artístico. Empresas como a Kodak e outras investiram na investigação para criar projectores robustos e profissionais, bem como controladores electrónicos que permitiram imaginar espectáculos complexos com múltiplos projectores e bandas sonoras criadas para o efeito. Empresas, técnicos e artistas especializaram-se nos diaporamas e, a certa altura, nos anos 90 do séc. XX, no auge do desenvolvimento de processos, incluindo software cada vez mais evoluído para controlo a partir do computador, toda a atenção se virou para os projectores e tecnologias digitais. As máquinas e os slides foram ficando nas prateleiras a ganhar mofo.
As fotografias que se reúnem neste Diaporama são imagens vernaculares de autoria e data desconhecida, produzidas ao longo dessa época de euforia que resulta da popularização massiva da fotografia, entre a Segunda Guerra Mundial e o fim do século, altura em que o processo fotográfico se converteu de analógico em digital. São as fotografias de um universo vernacular amador relativamente democratizado e globalizado, que gradualmente se tornou acessível a cada vez mais pessoas pelo mundo fora, impulsionado pelas economias mais industrializadas e dominantes. A história da fotografia não deixa de reflectir a história da economia e da política mundial, e as histórias das famílias contadas pelas suas fotografias não deixam de ser o espelho da sua liberdade, do seu acesso a meios de sobrevivência, cultura e qualidade de vida, como nos explicou Pierre Bourdieu, no seu Un Art Moyen, de 1966, ensaio sobre os usos sociais da fotografia.
A performance visual e sonora Diaporama contempla diapositivos encontrados em diversas partes do mundo, revelando fotografias de pessoas que não conhecemos mas reconhecemos, porque se parecem connosco, ou lugares onde talvez não tenhamos estado mas que julgamos familiares. No processo de projecção, essas fotografias misturam-se com desperdícios de filmes recuperados dos caixotes de lixo das cabines de projecção das velhas salas de cinema. A mesma matéria celulóide, o mesmo formato da película perfurada de 35 mm de largura, mas com origens e percursos distintos. As fotografias vernaculares amadoras, que de forma massiva ajudaram a criar uma indústria, fundem-se aqui com vestígios da dimensão global do cinema, através de pedaços de película rejeitados por projecionistas nas suas preparações de bobines para a exibição nas salas.
As fotografias e o cinema nasceram do mesmo desejo e da mesma matéria físico-química e são efectivamente a mesma coisa, podemos inferir do pensamento do fotógrafo e cineasta experimental Hollis Frampton, que afirmou que a fotografia, enquanto quadro isolado de uma sucessão rápida que cria a ilusão do movimento, só surgiu primeiro historicamente, para poder proporcionar o cinema. Cada nova fotografia, por estática que pareça, é o fragmento de um filme potencialmente infinito do qual não vemos o antes ou o depois.
Esse cinema-fotografia-matéria, de química palpável, sensível às mutações da luz, da temperatura e da humidade, pode muito bem sobreviver à mão que o criou e à mente que o imaginou, mas está condenado a morrer, possivelmente depois de ser visto por outros olhos, tocado por outras mãos, digitalizado por outras máquinas, distantes e indiferentes aos seus criadores. Da gravação de sons em fitas magnéticas, em suportes ópticos ou em rasgos no vinil que acompanharam o cinema e a nossa necessidade de comunicar, pode-se esperar o mesmo: que pereçam, depois de servirem a temporalidade da memória humana. No entanto, algo da presença histórica de uma voz e dos ruídos que a rodeiam permanece na vida de uma gravação de áudio, enquanto ela dura.
A criação sonora que acompanha as imagens no Diaporama inclui gravações em fita magnética da era analógica, muitas delas encontradas, pessoais e órfãs, mas também ondas de rádio e outros ruídos concretos e sintéticos, produzidos no momento, como o foley para um filme ou uma séance espiritual. A performance procura reagir e integrar a arquitectura da sala onde intervém, é por isso ‘site specific’ e ‘time specific’, reflectindo o local e o tempo em que acontece.
Este trabalho deixa uma questão latente que não conseguimos deixar de adiar: Quando morrermos, para que servem os arquivos pessoais que acumulamos?
diaporama.cesarioalves.net
cesarioalves.net/projects/diaporama
Concepção e operação de imagem: Cesário Alves | Atmosfera sonora: Miguel Pipa, Mariana Sardon, Hélder Luís e Cesário Alves | Supervisão técnica: Hélder Luís | Duração: 3 horas (performance duracional).
Cesário Alves
Artista multidisciplinar e professor. Concluiu doutoramento em 2018 no College of Arts, Humanities and Education, da University of Derby, no Reino Unido, onde desenvolveu investigação no campo da fotografia vernacular e das suas apropriações na arte contemporânea. Leciona unidades curriculares da área de conhecimento de Fotografia nos cursos da Escola Superior de Media, Artes e Design (Politécnico do Porto), em Vila do Conde.
www.cesarioalves.net
Hélder Luís
Designer, artista multimédia, fotógrafo e músico. Estudou Design Gráfico e Tipografia e, desde 1996, desenvolve projectos para diversas empresas e instituições, em Portugal e no estrangeiro. Apresentou criações individuais e colectivas em diferentes contextos, mantendo uma prática contínua de composição e edição musical. Desde 2018, dedica-se à exploração da cultura marítima enquanto fotógrafo documental e artista multimédia. Através da fotografia, da instalação e da edição de livros, investiga a relação entre as comunidades costeiras e o mar, documentando práticas tradicionais, transformações culturais e memórias colectivas. O seu trabalho tem sido apresentado regularmente em exposições por todo o país, afirmando-se como uma reflexão contemporânea sobre o património marítimo em Portugal. Em 2021 concluiu um mestrado em Fotografia e Cinema Documental e, em 2026, uma pós-graduação em Museologia.
www.helderluis.net | www.helderluis.pt
Mariana Sardon
Artista multidisciplinar. Licenciada em Tecnologias da Comunicação Multimédia (ESMAE – Porto, 2013) e mestre em Multimédia, com especialização em Música Interactiva e Sound Design (FEUP – Porto, 2017). O seu trabalho expande-se nos formatos de performance e/ou de instalação a partir dos objectos sonoros — electrónicos ou electroacústicos — em que tem vindo a trabalhar. Interessa-se por arquivos sonoros e de imagem, tendo em foco os seus processos técnicos de registo. Nos últimos anos tem vindo a colaborar com outros artistas, desenvolvendo projectos em contexto de residência artística. É também responsável por dirigir oficinas direccionadas para a construção de instrumentos electrónicos e construção de loops de som a partir de fita magnética.
www.marianasardon.net
Miguel Pipa
Poeta, músico e artista visual, constrói um universo onde a palavra, o som e o desenho coexistem entre tensão e harmonia. Move-se fora das estruturas académicas, explorando o erro, o improviso e a filosofia como força vital. Na sua obra, o gesto do desenho aproxima-se da escrita, e a experimentação sonora revela-se como uma forma de existência. Cria territórios imaginários, onde o natural e o artificial se contaminam e regeneram continuamente. A sua prática, simultaneamente poética e performativa, afirma-se como um exercício de liberdade e de escuta.
www.miguelpipa.pt
As fotografias que são objecto deste trabalho foram adquiridas ou encontradas em diversos países, sem qualquer informação associada sobre a sua origem, autoria ou identificação das pessoas representadas. Supomos que essas pessoas já desapareceram, mas, se não for esse o caso e alguém conseguir identificar ou provar uma relação com elas, fazemos questão de as identificar, respeitando a autoria ou de lhes devolver os originais.