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  • Moura [videostill] © Cecilia Bengolea

Bodies of water

Cecilia Bengolea

Performance

Solar Galeria de Arte Cinemática

19 Set (Sáb) | 18:30 

Entrada livre | Performance realizada no âmbito da exposição Raw Rhythms, de Cecilia Bengolea
Esta performance começa com uma pergunta simples: onde termina um corpo e começa uma paisagem?
Em vez de se limitar a ocupar um espaço, a intérprete entra num campo de trocas. O movimento torna-se uma forma de dissolver a distinção entre silhueta e fundo, permitindo ao corpo oscilar entre a visibilidade e o desaparecimento, entre a individualidade e a atmosfera. A camuflagem não é aqui entendida como imitação, mas como um estado de permeabilidade, no qual o corpo se compõe com a luz, a textura, a vegetação, a arquitectura, o vento e o som.
O trabalho afasta-se de uma concepção da identidade enquanto condição humana estável. Em seu lugar, propõe um corpo expansivo e polimorfo, que se transcende através do ritmo. A intérprete não é tanto uma figura singular, mas antes uma constelação transitória de movimentos, continuamente reconfigurada pelo meio que habita. A presença emerge da relação, e não da autonomia.
Como escreve Astrida Neimanis, «os nossos corpos são corpos de água». Esta proposição ultrapassa o seu sentido literal, na medida em que sugere que somos constituídos por fluxos, trocas e movimentos contínuos de circulação, e não por fronteiras fixas. A performance acolhe esta ontologia fluida, imaginando o corpo como uma ecologia porosa, cujos contornos se encontram em permanente negociação.
O que daí emerge nem é uma personagem nem uma representação, mas um organismo em ressonância com aquilo que o rodeia. A coreografia desenvolve-se através da sintonia, e não do domínio, propondo uma forma de corporeidade mais-que-humana, na qual o ritmo substitui a identidade, a transformação substitui a permanência e a relação se torna a principal forma de existência.
Camuflar-se não significa desaparecer. Significa tornar-se irredutível aos limites do próprio corpo — habitar um modo de existência colectivo, mutável e em contínua formação.
Como nos recorda Donna Haraway, «tornamo-nos-com [sic] os outros, ou não nos tornamos de todo». Esta noção de tornar-se-com ocupa um lugar central na performance. A identidade não é entendida como uma condição autónoma, mas como um processo de composição com o mundo vivo. A camuflagem não é, portanto, nem mimetismo nem desaparecimento: é um acto de harmonização. Através do movimento, o corpo entra em correspondência com o ambiente, até que a distinção entre sujeito e meio se torna porosa.
O trabalho propõe uma coreografia da permeabilidade, na qual o ritmo substitui a identidade e a relação substitui a hierarquia. O corpo expande-se para além de si próprio, tornando-se menos um indivíduo do que uma constelação de encontros - mutável, relacional e sempre em formação.
– Cecilia Bengolea

A iniciativa realiza-se no âmbito da exposição Raw Rhythms, de Cecilia Bengolea, que resulta de uma parceria entre a Solar e o Circular  - Festival de Artes Performativas, e decorre na Solar – Galeria de Arte Cinemática.



Cecilia Bengolea (Buenos Aires, 1979) é uma artista que trabalha nas áreas da performance, do vídeo, da escultura e da dança. A sua prática explora o corpo, individual e colectivamente, enquanto meio de memória, empatia e intercâmbio emocional. Utilizando o movimento como uma forma de escultura animada, concebe a dança e a performance como espaços onde convergem energias simbólicas, sociais e naturais, posicionando frequentemente o seu próprio corpo simultaneamente como sujeito e objecto.
Colaborou com artistas como Dominique Gonzalez-Foerster, Jeremy Deller e numerosos intérpretes de dancehall, entre os quais Craig Black Eagle e Oshane Overload. O seu trabalho coreográfico, desenvolvido em colaboração com François Chaignaud, foi distinguido com o Prix de la Critique (Paris, 2010) e recebeu o Prémio Jovem Artista na Bienal de Gwangju (2014). Bengolea recebeu encomendas de peças coreográficas por parte do Ballet de Marseille, do Ballet de Lyon, do Ballet de Lorraine e do Tanztheater Wuppertal de Pina Bausch.
O trabalho de Bengolea tem sido apresentado internacionalmente em instituições e eventos como o Guggenheim Bilbao, o Centre Pompidou, a Tate Modern, o Palais de Tokyo, a Dia Art Foundation, a Bourse de Commerce – Collection Pinault, o Museo Reina Sofía, o MUDAM Luxembourg, a Art Basel Parcours, a Desert X e as bienais de Gwangju e de São Paulo, entre muitos outros.
A sua obra integra importantes colecções públicas e privadas, entre as quais a Pinault Collection, o Museo Reina Sofía, a Kadist France, o MUDAM Luxembourg, a TBA21 Academy, o MIRE – Fonds cantonal d’art contemporain, a The Vinyl Factory, o CNAP, o Le Consortium, o Fiorucci Art Trust, o Tank Shanghai, a Fundación ARCO e o MONA – Museum of Old and New Art, na Tasmânia, entre outras.
Em 2023, foi professora convidada no mestrado em Performance da Universidade de Arquitectura de Veneza, em Itália.
Vive e trabalha entre Paris e Buenos Aires.